OAB-PA se reúne para discutir escândalos
É num ambiente de divisão, desconfiança e de caça às bruxas que o Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA) se reúne na próxima terça-feira (2) para lavar a roupa suja da venda do terreno da subseção de Altamira e da falsificação da assinatura do vice-presidente, Evaldo Pinto. Outros assuntos também estão em pauta, como os que envolvem julgamento de processos por infração disciplinar de advogados. Em casos como esses, o julgamento é protegido pelo sigilo.
O primeiro grande problema para que a reunião ocorra sem o risco de bate-boca entre grupos, é a presença de Jarbas Vasconcelos na presidência. Conselheiros já antecipam que irão pedir que ele se afaste, alegando que não teria isenção para comandar os trabalhos. Ex-presidentes da Ordem antecipam que se farão presentes à reunião, cobrando esclarecimentos sobre os fatos que têm provocado manchetes na mídia.
Outros assuntos polêmicos também não vão faltar. Entre eles, a desistência da compra do terreno pelo conselheiro Robério D’Oliveira, que quer a devolução de R$ 301 mil que teria desembolsado, e o pedido do também conselheiro Ismael Moraes para que o dinheiro não seja devolvido em razão de a grana poder vir a ser usada em eventual ação de indenização por dano coletivo à categoria dos advogados filiados à OAB.
DESGASTE
Um conselheiro antecipou que pedirá para que o caso da venda do terreno e a fraude na assinatura sejam debatidos em uma reunião específica, mas essa proposta enfrenta reações de um grupo expressivo de advogados, que não vê condições de adiamento sobre temas que causam enorme desgaste à imagem da entidade.
Adiar o que já estaria além da conta para ser debatido, segundo esses advogados, seria prolongar a angústia dos que cobram explicações convincentes sobre tudo o que ocorreu na Ordem nesses últimos trinta dias.
Frente pede renúncia de Jarbas
Frente pede renúncia de Jarbas
Uma coisa não se pode negar: o clima está pesado na Ordem, principalmente depois que por lá passou, na última quinta-feira, a comissão de sindicância do Conselho Federal da entidade, que veio a Belém para ouvir os depoimentos das pessoas envolvidas na venda do terreno e também apurar a responsabilidade pela falsificação da assinatura do vice em uma procuração para formalizar o fechamento do negócio. Enquanto para alguns o trabalho da comissão deixou no ar um cheiro de pizza, para outros a seriedade e a discrição com que os integrantes se comportaram foram a demonstração de que o resultado poderá trazer surpresas desagradáveis aos atuais dirigentes da seção estadual.
Três dias antes da chegada da comissão a Belém, o presidente Jarbas Vasconcelos exonerou dois conselheiros - Leonardo Amaral Pinheiro da Silva, da presidência da Comissão de Exame da Ordem, e Raphael Sampaio Vale, organizador da corrida dos advogados – pelo fato de ambos terem assinado um pedido de intervenção da OAB federal e o afastamento da diretoria. O documento tinha outras sete assinaturas, inclusive do secretário-geral-adjunto, Jorge Medeiros, responsável pela descoberta de irregularidades na venda e da fraude na assinatura de Pinto.
Além dos nove conselheiros contrários às atitudes do presidente Jarbas Vasconcelos, outros advogados decidiram também se organizar para fazer aquilo que denominam de “salvação da OAB”, defendendo a retomada da credibilidade da instituição, que parece esvair-se em meio a um escândalo que não encontra paralelo em mais de 80 anos de vida da entidade - cuja história se confunde com a defesa da democracia, do estado de direito e da cidadania nacional.
O movimento começa a ganhar força, mas traz um ingrediente incômodo para a atual diretoria, uma vez que cobra a renúncia de Vasconcelos e a criação de uma junta governativa.
O presidente da OAB, por outro lado, sequer cogita afastar-se do cargo que ocupa e vê na articulação dos descontentes uma espécie de complô para destituí-lo. Por conta disso, ele agarra-se desesperadamente ao que resta do grupo que o apoia, tentando criar uma blindagem que mais parece feita de flocos de algodão.
APOIOS
A manifestação de um grupo de advogados trabalhistas ancorada por 170 assinaturas e a declaração de apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do PT, onde Vasconcelos concentra sua bem-sucedida carreira profissional, defendendo causas na Justiça do Trabalho, não conseguem sensibilizar a grande maioria dos mais de 12 mil advogados com registro na OAB.
A decepção e a apatia parecem ter atingido duramente a classe. Bem diferente do que se viu na mobilização de Vasconcelos numa passeata contra a corrupção, mirando na vidraça da monumental trapaça ocorrida na Assembleia Legislativa.
Para a maioria dos advogados, a maracutaia na venda do terreno e a falsificação em uma assinatura, dentro da própria OAB, ensinaram que não se deve falar de corda em casa de enforcado. (Diário do Pará)